Logo que minha barriga começou a dar sinais de acúmulo de gordura, as pessoas se prontificaram a tecer comentários. "Você está engordando!", ou "Está ficando barrigudo", ou "Que barriguinha, hein?". Além desses, havia provocações mais escrachadas e infames: "Você está de quantos meses?", ou "É pra quando seu bebê?", ou "Como vai o seu calo sexual?". Das primeiras vezes, eu ouvia e desprezava o gracejo. Mas a quantidade de vezes que essas coisas eram ditas era assustadora. Eu imaginava que as pessoas fossem reparar no meu aumento de peso. Imagina, também, que muitas fossem conversar comigo a respeito. Mas nunca pensei que mais da metade das pessoas com quem convivia se dispusessem a comentar minha aparência. Pior que isso: pessoas com quem eu não tinha a menor intimidade, ou que não tinham a menor abertura comigo, sentiam-se extremamente à vontade para fazer brincadeiras, piadas, ou afirmações constrangedoras. Sinceramente, nunca pensei que a vida alheia fosse tão importante. Da mesma forma, não passou pela minha cabeça que um número tão grande de pessoas tivesse liberdade para fazer brincadeiras a respeito da minha aparência. Parece até que o fato de você engordar, por si só, já permite às pessoas perderem o respeito pela sua integridade humana. Como se uma pessoa acima do peso não tivesse o mesmo estatuto de dignidade de qualquer outra.
Se isso tivesse acontecido algumas vezes, vá lá. Mas os abusos vinham de todos os lados, de pessoas as mais diversas, e posso afirmar com segurança que não houve um dia, durante esse período, em que não ouvisse pelo menos um comentário não solicitado.
Mas meu sofrimento aumentava. Porque eu não podia parar o que estava fazendo, a entrega da dissertação urgia, meu tempo era escasso, e eu só conseguiria mudar de ritmo quando depositasse a redação final. As observações que as pessoas faziam, especialmente as maldosas, jamais representaram mais que cutucadas na minha autoestima. No mundo em que vivemos, a preocupação com a aparência é tão absoluta que chega-se a julgar que os outros dela naturalmente compartilhem. A grande maioria dos que me censuravam sequer perguntou o que estava se passando comigo, como eu estava vivendo, quais eram minhas prioridades naquele momento, ou - a pergunta mais básica - como eu estava me sentindo. Era comentário, censura, ridicularização, como se o que acontecia comigo fosse decorrente de premeditado comportamento autodestrutivo.
Lembro-me de uma cena, logo no começo de meu martírio, em que um colega professor da Prefeitura fez um comentário jocoso sobre minha barriga. Eu não gostei do comentário e disse algo como: "- Puxa, mui amigo você, hein?".
Outra colega, ouvindo a conversa, tomou as dores do professor que fizera a gracinha, dizendo que era justamente porque ele era meu amigo e gostava de mim que estava dizendo aquilo. Ou seja, que aquela ridicularização era benéfica, pois estaria me chamando a atenção para algo que eu precisaria melhorar. Eu contra-argumentei indignado, dizendo que amigos não eram aqueles que nos apontavam "defeitos", mas aqueles que nos apoiavam e ficavam do nosso lado com ou sem "defeitos". Peço desculpas pela palavra defeitos, mas julgo que foi ela ou algo bem semelhante que usei naquele dia. Eu estava irritado e não deu tempo de encontrar uma expressão mais adequada.
A discussão não continuou, mas quando fui mais uma vez criticado, pela mesma professora, fiquei bravo, levantei a camisa e mostrei meu abdômen, desafiando: "- Olha aqui, vê se isso está grande! Está normal!". As pessoas presentes na sala pasmaram, e aquela professora, em particular, nunca mais comentou nada.
Admito que fui rude e grosseiro na minha atitude, demonstrando irritação e desconforto com o que ouvia repetidamente. Poderia dar outros tipos de resposta, de outras formas. O que posso dizer em minha defesa é que estava acuado, sentindo-me invadido e pressionado a dar uma solução para algo que, naquele momento, não poderia resolver. A insistência com que ouvia as mesmas coisas era algo que começava a me provocar reações completamente distintas das que costumava ter. Mas era nítido, por outro lado, que, se havia algo errado em mim, também havia nas pessoas, na sociedade, no mundo à minha volta. Por que essa insistência em relação à minha aparência, sendo que eu era uma pessoa com tantas outras características dignas de nota? Por que ninguém falava das coisas que eu fazia, das minhas aulas, da minha dedicação acadêmica, do meu caráter, das minhas lutas individuais? Por que isso acontecia justamente com uma pessoa como eu, sempre pronta a valorizar as qualidades que via nos outros, e sempre tão preocupada em não ferir ou contranger ninguém ao toca em questões desconfortáveis?
E então aconteceu algo que, para mim, prova definitivamente que a crítica insistente e incisiva não é sinal de atitude positiva em relação a um amigo. Aconteceu que, com a mente completamente voltada para a defesa de mestrado, os problemas que pareciam fatores complicadores adicionais em relação a esse objetivo foram jogados para uma confortável zona de esquecimento. Ou seja: depois de tanto ouvir sobre estar gordo, passei a evitar balanças.
Foram alguns meses de fuga inconsciente. Mas alguns dias antes de depositar o texto final (em 1 de agosto de 2008, data limite), resolvi me pesar. Com 1,73 de altura, eu estava com 92 quilos. A coisa saíra de controle. E eu precisava de ajuda. Não de repreensão.
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