Não sei se é uma obviedade para as pessoas, mas ressalto, aqui, que levar um mestrado até o fim não é pouca coisa.
Uma das razões é a grande exigência de correção do texto a ser produzido. Não basta escrever e entregar os capítulos no prazo. É preciso certificar-se de que a redação constitui um todo, de que os capítulos se complementam, de que não há falhas graves de raciocínio ou deslizes quase imperceptíveis. Isso demanda muito, muito tempo.
Ler as referências também não é atividade leve, pois é preciso lembrar, na hora de escrever, quais os pontos principais de outros textos a serem citados. Por isso, as obras que fundamentam a dissertação precisam ser anotadas, dissecadas, esmiuçadas. E as transcrições precisam atender a toda a normatização da metodologia científica.
Com todos esses detalhes e procedimentos, torna-se necessário empenhar muito tempo para construir um texto minimamente apresentável. Esse era o tempo que eu não tinha em 2008, mergulhado que estava nas rotinas dos empregos que mantinha.
Friso, neste ponto, que não estou levantando desculpas para a mudança de comportamento que descreverei adiante. Não acho que eu precise me justificar nem para mim, nem para ninguém, assim como não acho que alguém que não seja o que as pessoas querem que ele seja precise se justificar de coisa alguma. Apenas tento ser verdadeiro, analisando as razões que me levaram ao desequilíbrio físico que me acometeu a partir do meio do ano.
O primeiro passo para começar a engordar foi ter parado de frequentar a academia. Em pouco tempo, meu corpo deixou de responder a certos movimentos, tornou-se mais lento e mais propenso à preguiça. Acresce-se a isso o fato de que escrever só é possível quando se está sentado, e que foi sentado que passei as muitas e muitas horas de preparação do meu texto. Mas há um segundo passo, igualmente importante: tendo de manter a atenção e a disciplina intelectual a despeito do cansaço físico, comecei a compensar a exaustão cerebral com uma alimentação mais calórica, mais estimulante. Não cheguei a tomar nada de estranho, mas meu consumo de doces e açúcares aumentou sensivelmente. Posso também citar um terceiro passo: não ter tempo para nada significa, muitas vezes, sacrificar o próprio tempo de se alimentar com calma e escolher conscientemente os cardápios. Nesse período, eu praticamente não mastigava a comida, quase nunca cozinhava nada para comer e solucionava meus problemas com comida empacotada e fast food, ou comendo fora. Minha dieta saiu completamente do controle.
Mas ainda há mais: quantas vezes, ao precisar fechar um capítulo ou parte do texto, eu não caminhava por horas a fio de um lado para o outro do meu quarto, com uma ansiedade que chegava a comprometer minha respiração? E a consequência não é difícil de prever. A ansiedade exige algo que a diminua, que podia ser a comida, o sono excessivo, ou a entrega a horas de inutilidade sentado em frente ao computador.
E ainda há mais: tornaram-se pouco frequentes minhas saídas, minhas visitas a amigos, minhas simples perambulações pelo bairro. Em síntese, posso dizer que o período de produção de minha dissertação foi de solidão, sedentarismo, ansiedade e hábitos pouco saudáveis de alimentação. O resultado é que, sem que desse muita atenção a isso, eu aumentara meu peso e mudara minha silhueta. Eu mantinha uma barriguinha há alguns anos, que não chegava a assustar ninguém nem era muito diferente da que a maioria das pessoas na minha idade também ostentavam. O que começou a acontecer foi que essa barriguinha começou a aumentar, tornar-se mais redonda e saliente (azar o meu, que tenho um biotipo com tendência a acúmulo de gordura na cintura). Não fora uma mudança tão enorme, provocadora de desproporção gritante. Mas comecei a perceber que o que eu entendia por "gritante" era diferente do que os outros entendiam. Comecei a perceber que, para a maioria das pessoas, a falta de caráter, a arrogância, a corrupção e a imbecilidade dos indivíduos não são motivos de indignação. A aparência, sim.
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