A primeira coisa a fazer é me apresentar. Tenho 35 anos, e tinha 34 quando essa coisa toda começou. Sou um professor. Dou aulas de História na Prefeitura de São Paulo, e de Literatura e outras disciplinas numa faculdade particular. Posso afirmar, portanto, que desde o início tardio de minha carreira, há uns doze anos atrás, sempre trabalhei em contato direto com o público.
Dizem que é do contato com o outro que podemos construir nossa autoimagem. Também é verdade que esse contato não é via de mão única, havendo muitos elementos constitutivos de nossa identidade que não provêm das falas e intervenções alheias. Creio que sempre dei atenção ao que falavam ao meu respeito, o que não me parece ser nem defeito nem qualidade da minha parte, apenas uma característica do meu modo de me socializar. Em verdade, sinto que demorei a ouvir alguns conselhos úteis que me foram dados. Por outro lado, recusei muitas das avaliações que foram feitas sobre mim, sem a menor parcimônia.
Mas uma coisa que nunca - nunca mesmo - me incomodou foi minha aparência. Sei que fui um jovem desleixado e que me vestia com propositada deselegância. Sei que deixei os cabelos crescerem na adolescência para criar certo ar de rebeldia e inconformismo - que, é bom que se diga, são marcas da minha personalidade desde sempre. Sei que houve campanhas para que eu cortasse meus cabelos e deixasse de lado esse visual largado que cultivava. Mas isso nunca me incomodou, nunca foi algo acintoso, agressivo. As pessoas falavam, sugeriam, comentavam, eu ouvia, agradecia, e continuava na minha.
Talvez as espinhas um pouco mais duradouras, ou a cicatriz de uma cirurgia no ombro provocassem algum incômodo. De resto, nada. Para ser honesto - e isso exige certo descompromisso com o politicamente correto -, posso dizer que era um jovem bonito, uma pessoa apetecível, alguém de quem as pessoas comentavam geralmente com elogios e bajulações.
Conto tudo isso para consolidar uma idéia que será importante daqui para frente: a de que nunca me achei feio, tampouco constava-me que as pessoas assim me considerassem. Há vários tipos de beleza, aos quais costumo ser muito atento. É certo que seja quase impossível para mim considerar alguém feio, mas quando falo de mim mesmo, uso o metro da sociedade em geral. Para os padrões que nos eram impostos, eu tinha um rosto bem ajeitado, um corpo esbelto não musculoso, cabelos castanhos que cresciam rapidamente e uma harmonia razoável no conjunto de todos os atributos. Havia paqueras, havia comentários, havia aproximações, havia toda uma série de sinais de que eu tinha uma certa beleza; alguma, certamente.
Por volta dos 30 anos, comecei a me desfazer de antigas ilusões e a perceber necessidades diferenciadas de aceitação social e - principalmente - de colocação no mercado de trabalho. Isso me fez mudar paulatinamente meu visual. Mantive os cabelos compridos, mas fui renovando o vestuário aos poucos, de forma a me aproximar cada vez mais de uma aparência convencional.
Cheguei, assim, a 2008, com 34 anos, tranquilo em relação a essas questões, mas preocupado com outras questões mais importantes.
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