domingo, 1 de fevereiro de 2009

OS PRIMEIROS COMENTÁRIOS

Logo que minha barriga começou a dar sinais de acúmulo de gordura, as pessoas se prontificaram a tecer comentários. "Você está engordando!", ou "Está ficando barrigudo", ou "Que barriguinha, hein?". Além desses, havia provocações mais escrachadas e infames: "Você está de quantos meses?", ou "É pra quando seu bebê?", ou "Como vai o seu calo sexual?". Das primeiras vezes, eu ouvia e desprezava o gracejo. Mas a quantidade de vezes que essas coisas eram ditas era assustadora. Eu imaginava que as pessoas fossem reparar no meu aumento de peso. Imagina, também, que muitas fossem conversar comigo a respeito. Mas nunca pensei que mais da metade das pessoas com quem convivia se dispusessem a comentar minha aparência. Pior que isso: pessoas com quem eu não tinha a menor intimidade, ou que não tinham a menor abertura comigo, sentiam-se extremamente à vontade para fazer brincadeiras, piadas, ou afirmações constrangedoras. Sinceramente, nunca pensei que a vida alheia fosse tão importante. Da mesma forma, não passou pela minha cabeça que um número tão grande de pessoas tivesse liberdade para fazer brincadeiras a respeito da minha aparência. Parece até que o fato de você engordar, por si só, já permite às pessoas perderem o respeito pela sua integridade humana. Como se uma pessoa acima do peso não tivesse o mesmo estatuto de dignidade de qualquer outra.
Se isso tivesse acontecido algumas vezes, vá lá. Mas os abusos vinham de todos os lados, de pessoas as mais diversas, e posso afirmar com segurança que não houve um dia, durante esse período, em que não ouvisse pelo menos um comentário não solicitado.
Mas meu sofrimento aumentava. Porque eu não podia parar o que estava fazendo, a entrega da dissertação urgia, meu tempo era escasso, e eu só conseguiria mudar de ritmo quando depositasse a redação final. As observações que as pessoas faziam, especialmente as maldosas, jamais representaram mais que cutucadas na minha autoestima. No mundo em que vivemos, a preocupação com a aparência é tão absoluta que chega-se a julgar que os outros dela naturalmente compartilhem. A grande maioria dos que me censuravam sequer perguntou o que estava se passando comigo, como eu estava vivendo, quais eram minhas prioridades naquele momento, ou - a pergunta mais básica - como eu estava me sentindo. Era comentário, censura, ridicularização, como se o que acontecia comigo fosse decorrente de premeditado comportamento autodestrutivo.
Lembro-me de uma cena, logo no começo de meu martírio, em que um colega professor da Prefeitura fez um comentário jocoso sobre minha barriga. Eu não gostei do comentário e disse algo como: "- Puxa, mui amigo você, hein?".
Outra colega, ouvindo a conversa, tomou as dores do professor que fizera a gracinha, dizendo que era justamente porque ele era meu amigo e gostava de mim que estava dizendo aquilo. Ou seja, que aquela ridicularização era benéfica, pois estaria me chamando a atenção para algo que eu precisaria melhorar. Eu contra-argumentei indignado, dizendo que amigos não eram aqueles que nos apontavam "defeitos", mas aqueles que nos apoiavam e ficavam do nosso lado com ou sem "defeitos". Peço desculpas pela palavra defeitos, mas julgo que foi ela ou algo bem semelhante que usei naquele dia. Eu estava irritado e não deu tempo de encontrar uma expressão mais adequada.
A discussão não continuou, mas quando fui mais uma vez criticado, pela mesma professora, fiquei bravo, levantei a camisa e mostrei meu abdômen, desafiando: "- Olha aqui, vê se isso está grande! Está normal!". As pessoas presentes na sala pasmaram, e aquela professora, em particular, nunca mais comentou nada.
Admito que fui rude e grosseiro na minha atitude, demonstrando irritação e desconforto com o que ouvia repetidamente. Poderia dar outros tipos de resposta, de outras formas. O que posso dizer em minha defesa é que estava acuado, sentindo-me invadido e pressionado a dar uma solução para algo que, naquele momento, não poderia resolver. A insistência com que ouvia as mesmas coisas era algo que começava a me provocar reações completamente distintas das que costumava ter. Mas era nítido, por outro lado, que, se havia algo errado em mim, também havia nas pessoas, na sociedade, no mundo à minha volta. Por que essa insistência em relação à minha aparência, sendo que eu era uma pessoa com tantas outras características dignas de nota? Por que ninguém falava das coisas que eu fazia, das minhas aulas, da minha dedicação acadêmica, do meu caráter, das minhas lutas individuais? Por que isso acontecia justamente com uma pessoa como eu, sempre pronta a valorizar as qualidades que via nos outros, e sempre tão preocupada em não ferir ou contranger ninguém ao toca em questões desconfortáveis?
E então aconteceu algo que, para mim, prova definitivamente que a crítica insistente e incisiva não é sinal de atitude positiva em relação a um amigo. Aconteceu que, com a mente completamente voltada para a defesa de mestrado, os problemas que pareciam fatores complicadores adicionais em relação a esse objetivo foram jogados para uma confortável zona de esquecimento. Ou seja: depois de tanto ouvir sobre estar gordo, passei a evitar balanças.
Foram alguns meses de fuga inconsciente. Mas alguns dias antes de depositar o texto final (em 1 de agosto de 2008, data limite), resolvi me pesar. Com 1,73 de altura, eu estava com 92 quilos. A coisa saíra de controle. E eu precisava de ajuda. Não de repreensão.

sábado, 31 de janeiro de 2009

GÊNESE DO DESEQUILÍBRIO

Não sei se é uma obviedade para as pessoas, mas ressalto, aqui, que levar um mestrado até o fim não é pouca coisa.
Uma das razões é a grande exigência de correção do texto a ser produzido. Não basta escrever e entregar os capítulos no prazo. É preciso certificar-se de que a redação constitui um todo, de que os capítulos se complementam, de que não há falhas graves de raciocínio ou deslizes quase imperceptíveis. Isso demanda muito, muito tempo.
Ler as referências também não é atividade leve, pois é preciso lembrar, na hora de escrever, quais os pontos principais de outros textos a serem citados. Por isso, as obras que fundamentam a dissertação precisam ser anotadas, dissecadas, esmiuçadas. E as transcrições precisam atender a toda a normatização da metodologia científica.
Com todos esses detalhes e procedimentos, torna-se necessário empenhar muito tempo para construir um texto minimamente apresentável. Esse era o tempo que eu não tinha em 2008, mergulhado que estava nas rotinas dos empregos que mantinha.
Friso, neste ponto, que não estou levantando desculpas para a mudança de comportamento que descreverei adiante. Não acho que eu precise me justificar nem para mim, nem para ninguém, assim como não acho que alguém que não seja o que as pessoas querem que ele seja precise se justificar de coisa alguma. Apenas tento ser verdadeiro, analisando as razões que me levaram ao desequilíbrio físico que me acometeu a partir do meio do ano.
O primeiro passo para começar a engordar foi ter parado de frequentar a academia. Em pouco tempo, meu corpo deixou de responder a certos movimentos, tornou-se mais lento e mais propenso à preguiça. Acresce-se a isso o fato de que escrever só é possível quando se está sentado, e que foi sentado que passei as muitas e muitas horas de preparação do meu texto. Mas há um segundo passo, igualmente importante: tendo de manter a atenção e a disciplina intelectual a despeito do cansaço físico, comecei a compensar a exaustão cerebral com uma alimentação mais calórica, mais estimulante. Não cheguei a tomar nada de estranho, mas meu consumo de doces e açúcares aumentou sensivelmente. Posso também citar um terceiro passo: não ter tempo para nada significa, muitas vezes, sacrificar o próprio tempo de se alimentar com calma e escolher conscientemente os cardápios. Nesse período, eu praticamente não mastigava a comida, quase nunca cozinhava nada para comer e solucionava meus problemas com comida empacotada e fast food, ou comendo fora. Minha dieta saiu completamente do controle.
Mas ainda há mais: quantas vezes, ao precisar fechar um capítulo ou parte do texto, eu não caminhava por horas a fio de um lado para o outro do meu quarto, com uma ansiedade que chegava a comprometer minha respiração? E a consequência não é difícil de prever. A ansiedade exige algo que a diminua, que podia ser a comida, o sono excessivo, ou a entrega a horas de inutilidade sentado em frente ao computador.
E ainda há mais: tornaram-se pouco frequentes minhas saídas, minhas visitas a amigos, minhas simples perambulações pelo bairro. Em síntese, posso dizer que o período de produção de minha dissertação foi de solidão, sedentarismo, ansiedade e hábitos pouco saudáveis de alimentação. O resultado é que, sem que desse muita atenção a isso, eu aumentara meu peso e mudara minha silhueta. Eu mantinha uma barriguinha há alguns anos, que não chegava a assustar ninguém nem era muito diferente da que a maioria das pessoas na minha idade também ostentavam. O que começou a acontecer foi que essa barriguinha começou a aumentar, tornar-se mais redonda e saliente (azar o meu, que tenho um biotipo com tendência a acúmulo de gordura na cintura). Não fora uma mudança tão enorme, provocadora de desproporção gritante. Mas comecei a perceber que o que eu entendia por "gritante" era diferente do que os outros entendiam. Comecei a perceber que, para a maioria das pessoas, a falta de caráter, a arrogância, a corrupção e a imbecilidade dos indivíduos não são motivos de indignação. A aparência, sim.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O MESTRADO

Em meados de agosto de 2004, tomei uma decisão que viria a se tornar a mais importante e marcante de minha vida. Fiz as provas de seleção e acabei sendo admitido no mestrado na USP, na área de Letras, para estudar Literatura Brasileira. Foi uma luta árdua. Primeiro, porque eu e minha ex-esposa nos separamos logo no início dos trabalhos, o que acabou atrasando todo o desenvolvimento da minha pesquisa. Segundo, porque tive muitas dificuldades para conciliar os dois empregos que já tinha na época (a Faculdade e a Prefeitura) com as exigências de dedicação, leitura e escrita necessárias a uma boa produção. Terceiro, porque havia uma vida acadêmica correndo paralelamente, exigindo apresentações em Congressos e Seminários e provocando um desgaste psicológico adicional em função de meu medo de me expor a um público especializado.
Fui levando tudo isso da maneira que podia, mas os prazos foram se encerrando e, no início de 2oo8, teve início uma verdadeira contagem regressiva para o depósito da dissertação. Escrevi, reescrevi, li, reli, corrigi, recorrigi milhares de vezes o texto que iria entregar. Nunca me dediquei tanto e tão intensamente a uma causa. O título de mestre e a boa aceitação da minha dissertação consistiam no meu único farol, em direção ao qual singrava decido e resoluto.
Por causa dessa batalha contra o tempo, em meados de março parei de frequentar a academia. Até então eu não fora muito assíduo nem muito preocupado com os resultados, mas pelo menos conseguia manter uma regularidade nos treinos. Mas a coisa engrossou, havia pouco tempo e muito a fazer, os dias urgiam, cada segundo era importante. O resultado dessa parada brusca, acelerado por outros fatores agravantes, foi sentido rapidamente.

QUEM SOU

A primeira coisa a fazer é me apresentar. Tenho 35 anos, e tinha 34 quando essa coisa toda começou. Sou um professor. Dou aulas de História na Prefeitura de São Paulo, e de Literatura e outras disciplinas numa faculdade particular. Posso afirmar, portanto, que desde o início tardio de minha carreira, há uns doze anos atrás, sempre trabalhei em contato direto com o público.
Dizem que é do contato com o outro que podemos construir nossa autoimagem. Também é verdade que esse contato não é via de mão única, havendo muitos elementos constitutivos de nossa identidade que não provêm das falas e intervenções alheias. Creio que sempre dei atenção ao que falavam ao meu respeito, o que não me parece ser nem defeito nem qualidade da minha parte, apenas uma característica do meu modo de me socializar. Em verdade, sinto que demorei a ouvir alguns conselhos úteis que me foram dados. Por outro lado, recusei muitas das avaliações que foram feitas sobre mim, sem a menor parcimônia.
Mas uma coisa que nunca - nunca mesmo - me incomodou foi minha aparência. Sei que fui um jovem desleixado e que me vestia com propositada deselegância. Sei que deixei os cabelos crescerem na adolescência para criar certo ar de rebeldia e inconformismo - que, é bom que se diga, são marcas da minha personalidade desde sempre. Sei que houve campanhas para que eu cortasse meus cabelos e deixasse de lado esse visual largado que cultivava. Mas isso nunca me incomodou, nunca foi algo acintoso, agressivo. As pessoas falavam, sugeriam, comentavam, eu ouvia, agradecia, e continuava na minha.
Talvez as espinhas um pouco mais duradouras, ou a cicatriz de uma cirurgia no ombro provocassem algum incômodo. De resto, nada. Para ser honesto - e isso exige certo descompromisso com o politicamente correto -, posso dizer que era um jovem bonito, uma pessoa apetecível, alguém de quem as pessoas comentavam geralmente com elogios e bajulações.
Conto tudo isso para consolidar uma idéia que será importante daqui para frente: a de que nunca me achei feio, tampouco constava-me que as pessoas assim me considerassem. Há vários tipos de beleza, aos quais costumo ser muito atento. É certo que seja quase impossível para mim considerar alguém feio, mas quando falo de mim mesmo, uso o metro da sociedade em geral. Para os padrões que nos eram impostos, eu tinha um rosto bem ajeitado, um corpo esbelto não musculoso, cabelos castanhos que cresciam rapidamente e uma harmonia razoável no conjunto de todos os atributos. Havia paqueras, havia comentários, havia aproximações, havia toda uma série de sinais de que eu tinha uma certa beleza; alguma, certamente.
Por volta dos 30 anos, comecei a me desfazer de antigas ilusões e a perceber necessidades diferenciadas de aceitação social e - principalmente - de colocação no mercado de trabalho. Isso me fez mudar paulatinamente meu visual. Mantive os cabelos compridos, mas fui renovando o vestuário aos poucos, de forma a me aproximar cada vez mais de uma aparência convencional.
Cheguei, assim, a 2008, com 34 anos, tranquilo em relação a essas questões, mas preocupado com outras questões mais importantes.